Páginas

Mostrando postagens com marcador Peças Soltas. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Peças Soltas. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Cartão Postal.


Ele jamais poderia esquecer-se de seus olhos, seus cabelos, seu sorriso. Da forma como ela falava parecendo sussurrar como um vento cálido em uma noite de verão e de como seus dedos finos acariciavam seu cabelo fazendo-o rapidamente pegar no sono.

Ela estava seguramente gravada em cada célula sua e em cada canto daquela casa com chão de madeira polida e telha vermelha, emoldurada pelo pequeno jardim que transpirava a sua essência por sua grama meticulosamente aparada e um canteiro que parecia conter uma, e apenas uma, de cada flor existente.

Era engraçado como ela parecia querer e fazer tudo na medida exata obsessivamente e não descansava enquanto assim não o fosse. E ele a amava com todas as suas pequenas manias, porque isso a tornava especial e única.

Ele ainda podia ver seus vinis do Led Zeppelin arrumados em ordem crescente de ano de lançamento e seus livros devidamente separados por autor e gênero na estante, além de sua coleção de incontáveis cartões postais de cada canto do mundo - que ele não fazia ideia de como ela havia conseguido - pregados no mural que ela o fizera construir. Ela parecia ter um carinho especial por eles, mesmo que para ele não passassem de papel usado. E quando lhe dizia isso, ela brigava e dizia que eles continham fragmentos de saudade. Que serviam para acalmar corações que sofriam pela distância e que de uma certa forma, lhe traziam algo de paz.

E ele só desejava que ela tivesse ao menos deixado isso para trás para que suavizasse o imenso buraco que ficara nele e que matasse um pouco que fosse dessa saudade que manchava seu rosto com lágrimas e comprimia seu peito de uma forma que respirar se tornava impossível.

Restava-lhe apenas arrastar-se pela vida, escapando do desespero, e esperar por um adeus tardio. Um olhar atrás. Ou mesmo um cartão postal. E que ele pudesse então, começar sua própria coleção de saudade.




- Débs

segunda-feira, 27 de agosto de 2012

Take me.

Estou tão cega pela dor e ao mesmo tempo tão entorpecida. Tudo é tão confuso do lado de fora.

As pessoas passam por mim, me olham. Eu não as reconheço. Você estaria entre elas? É você quem me mantém no mundo dos lúcidos?

Estou desabando, estou presa em pesadelos e não posso acordar. Será que eu quero?

Você pode me salvar? Você pode ser o meu paliativo?

As pílulas já não são suficientes para me afastar da realidade que eu não quero enfrentar. Sou fraca, sou covarde. Me ajude a enxergar de novo as coisas boas e puras. Me socorra.

Pegue em minha mão e me livre desse eu egoísta que me afunda em desânimo e autocompaixão.

Atravesso o tempo. Sobrevivo. Continuo a mesma e sou outra. Eu estou me perdendo nas batidas do relógio. Você consegue ver?

Eu posso senti-lo tão perto, mas não consigo alcançá-lo. Tão lindo e intocável. Me agarro às boas lembranças e te faço tão meu quanto jamais seria.

Estarei esperando. Um milagre, uma luz. Você.


- Débs.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

O não dormir.

O dia não acaba enquanto não se dorme, portanto enquanto acordado, as horas seguintes são apenas extensões do dia corrente. Dormir significa interromper um ritual onde coragem e força são reunidas pouco a pouco e com grande esforço. Dormir resulta em ter que despertar vazio e fraco e ter que recomeçar todo o processo do dia anterior. Quanto menos se dorme menos se teme um novo amanhecer.


- Débs

Alívio.

Densas nuvens estampam o céu noturno numa dança lenta e contínua enquanto as pequenas gotas da chuva anunciada maculam impiedosamente fachadas e rostos e roupas desprotegidos.

Apesar da tormenta evidente, o mundo abaixo não para, talvez não podendo dar-se ao luxo de interromper o seu habitual ir e vir atendendo ao capricho da natureza que insiste em escolher o justo momento para despejar toda a água cuidadosamente colhida em cada pôr e nascer de sol durante dias a fio, como se estivesse mais que ansiosa em livrar-se de todo fardo acumulado.

Tal cena repete-se rigorosamente, embora em menor escala, no interior da pequena casa totalmente destoante da selva de pedras no centro da cidade. Uma indefesa rosa, inabalável em meio ao mar de plantas nocivas e espinhentas.

As lágrimas rolam incessantes pela face doentiamente pálida através do olhar negro como a noite afora, trazendo proporcional alívio com o seu derramar, fazendo parecer que a causa de toda a angústia é nada mais que lágrima retida por tempo demais. Não que esteja errado.

As pernas estiradas no piso, os braços apertados contra o corpo e a esperança seguramente guardada no peito como uma brasa recém apagada que, com o estímulo certo, reacende e se torna chama viva. A certeza de que o amanhecer seja belo, limpo e novo depois da atual tempestade.



- Débs

Carnival.


Foi em um dia chuvoso e colorido que nossos olhares se  encontraram entre muitos outros vestidos de alegria festiva e passageira e embalada pelo som ilusório das promessas sempre esperadas, mas nunca cumpridas.

Nos guiamos em passos desritmados, os sentidos perdidos em meio à batida ensurdecedora de origem indefinível, embora possível provir do sangue bombeando velozmente pelas veias tanto quanto da algazarra exterior.

As cores misturando-se e nos envolvendo, difusas, confusas, como se quisessem dissuadir-nos da loucura do se entregar ao desconhecido. Como se quisessem abrir-nos os olhos aos males irreversíveis do amor. Em vão. Nossas almas se entrelaçaram no momento em que nossos corações percorreram o caminho traçado por olhares interrompidos e buscados.

Um roce eletrizante, exteriorizando o não dito, valendo mais que palavras desgastadas e corrompidas. Imperceptível para aqueles que passam pela vida depressa, sem se apegar a pequenas existências, mas intenso e significativo aos dedicados em capturar vestígios de emoções fugidas por sob máscaras e sorrisos perfeitos demais, irreais demais.

A dança contínua da chuva lavando conceitos pré-definidos, tornando-nos ao barro, misturando naturezas e fazendo-as erráticas ante a realidade perturbadora da escuridão de cada amanhecer pintado de sol.

Nos vemos e nos vamos. Sem palavras, sem adeus, como os dois estranhos que somos intricados demais em nossas próprias canções, tendo nossos destinos ditados pelo vento. Nosso lugar não é aqui. Somos ciganos, vivemos para o mundo, não para nós mesmos, nem para os outros. Outro dia quem sabe, nos encontremos em uma nova dança. Mas o futuro é sombrio e nossas resoluções incertas, mudando como as estações e sendo acrescidas de novos e velhos ideais o tempo todo. Fiquemos com a lembrança de olhares e toques e sensações.


- Débs

O que fomos.


Estamos na mesma cama, faces quase se tocando. Ter-te tão perto é confortável, sua respiração me acalma. Faz parecer que as coisas continuam da mesma forma, como quando eu acordava assustada de um pesadelo e você me deitava em seu peito e me embalava. Você não falava, não era preciso. Apenas sua respiração compassada me dava certeza de que eu sempre estaria segura contigo. Mas a realidade agora é outra. Essa  proximidade física é apenas fachada para o abismo enorme que nos separa. E por mais que tente negar, você não é mais o mesmo. Eu consigo ver isso nos olhos que não brilham mais quando me olham, nos sorrisos isentos de qualquer emoção, nos toques evitados.

Quando foi que tudo mudou? Quando foi que passamos de amantes imersos em um amor incomparável e inabalável a meros companheiros dividindo um apê e as contas do mês? Há um ano talvez? Não, com certeza não. Eu não teria suportado essa distância por tanto tempo. Não vinda de você, que sempre achava que a mínima distância entre nossos corpos era distância demais e tratava de remediar isso me trazendo mais pra perto, me abraçando tão forte quando possível, sugando minha alma com olhares presos e beijos roubados.

Não saber os seus pensamentos e porquês me inquieta, me corroi o estômago. Talvez outra pessoa esteja se apoderando de você, mesmo que de mansinho. Alguém que tenha sido capaz de me superar em algo que eu julguei ser insuperável. Porque em todo esse tempo eu me dediquei unicamente a amar você e ninguém poderia viver esse amor melhor do que eu, que sei de todos os seus humores e manias e gostos. Ou talvez o amor tenha simplesmente se desgatado, virado brisa morna e fraternal, diferente da tempestade furiosa e apaixonada em que sempre vivemos e que nunca me pareceu suficiente pra expressar o que sentíamos.

Deveríamos terminar com isso de vez. É cruel nos torturarmos assim e eu te amo demais pra te ver infeliz. Acho que você só não vai embora por medo de me magoar, mas acredite, isso é bem pior. Cada preocupação que você demonstra com os meus sentimentos, me faz te amar ainda mais. Mas eu sei que mesmo se você fosse indiferente eu ainda te amaria, porque eu levei a sério quando você disse que o nosso amor estava escrito nas estrelas, que nada o destruiria. Não destruiu o meu, e no fundo eu espero que com você seja igual, que só esteja confuso e precisando de um tempo. Que quando essa má fase passar você volte para os meus braços. Mas na verdade você nunca os deixou, eles são seus e somente seus.

O amanhecer está chegando e essa é mais uma noite insone em que me prendo em lembranças e decoro cada traço desse rosto que foi meu por tanto tempo e que eu não sei por quanto mais será. Por isso aproveito o tempo que tenho e ignoro qualquer outra necessidade minha. Essa é a única que importa no momento. É essa imagem que irá me consolar quando a saudade for insuportável e os cobertores não forem suficientes para me aquecer. O fastasma do teu riso estará sempre aqui, ecoando, me lembrando de não me perder.




- Débs

Descobrir-se

Já fui muitas pessoas, já fui para muitas pessoas. Nunca fui quem queria ser e nem tive a oportunidade de descobrir quem o seria. Meus pensamentos nunca foram meus. Minha atitudes sempre guiadas - nunca por mim. Nunca saí da linha e nas poucas vezes em que pensei ter saído, eu apenas estava tentado viver - agora eu vejo isso.

Ao ser tantos múltiplos, passei a existir cada vez menos, virei nada, perdi essência. Enredei-me em intermináveis desventuras, despenquei para o vale da desesperança. A vida tornou-se enganosa e engenhosa, os planos uma perda de tempo, a felicidade virou algo a que eu não tinha direito.

Mas algo, então, mudou. Algo floresceu e clareou. Uma epifania tardia de gosto amargo, difícil de engolir. Viver não deveria significar colocar a vontades alheias em primeiro plano. Afinal, todos nós temos o mesmo valor, todos precisamos ser amados, precisamos amar-nos primeiro.

Dizer que me senti leve ante essa descoberta seria mentir. A verdade é que nunca o peso do mundo fora tão difícil de sustentar. Viver para si mesmo é trabalhoso. Trilhar seu próprio destino ao invés de viver o dos outros nunca me pareceu tão desafiador. Sempre tive medo de perder-me por amar demais o outro. Agora tenho medo de não encontrar-me por nunca ter me amado o suficiente.


- Débs

Existência Doída.


Insistentes raios de sol incidem sobre seu rosto, mas não abre os olhos, não pode. Há escuridão demais, sofrimento demais ofuscando a luz de si mesma. E doí. Não uma dor física, porque já perdera a tempos tal capacidade humana, mas a dor daqueles que sabem que estão perdidos e que não há caminho de volta. E vem o medo de não existir mais.  Medo de perder-se entre as mil faces de si mesma, de nunca mais ser a mesma de antes - aquela a qual ela gostava mais.

Respira fundo sentindo o ar quente de verão preenchendo seus pulmões e sente falta de correr por aí descalça sentindo a grama molhada entre os dedos. Isso não lhe é permitido mais. Porque esse mundo não é um mundo para os que esqueceram-se de crescer. É um mundos dos grandes. Um mundo do clássico, não da cantiga.

Seus olhos agora abertos, são vidraças embaçadas de uma  casa escura e empoeirada, cujos muitos habitantes estão cansados demais para arrumar a bagunça e apenas ficam por lá, existindo. Porque viver atrai sentimentos que se tornam armadilhas fatais. E existir dá menos trabalho, pois não precisa juntar os cacos a cada vez que o coração se rompe. Porque apenas existindo, não se existe mais.




- Débs